Transmongoliano II – Calor siberiano

Posted on Abr 17, 2013 in Travels | 0 comments

 

A Sibéria não é o fim do mundo, muito menos o fim da linha. De Moscovo até Irkutstk são 28 paragens. Quando seguir para Vladivostoque, o Transiberiano parará ainda 40 vezes, demorando-se, exactamente, entre três e 23 minutos em cada lugar. Chego à capital administrativa da Sibéria com um nascer do Sol a incendiar o céu. Se este lugar tem fama por ser o mais inóspito e frio do Planeta, com temperaturas que chegam aos 40 graus negativos, durante o Verão o calor também é de excessos. Ao longo do ano, a paisagem altera-se, ora branca e gelada, imóvel e impotente perante um dos invernos mais rigorosos que se conhece, ora amarelada e ressequida de um calor que podia ser africano. Esta é uma viagem de extremos.

Tudo em volta são árvores numa tela de um verde intenso que se estende a perder de vista ou não concentrasse a região 60% dos bosques da Rússia. Mas chegada à ‘Paris da Sibéria’, como é conhecida, o que realmente surpreende em Irkutsk é a quantidade de jovens universitários que contrastam com o país velho e decadente que espreita da janela do comboio. Em tempos a cidade esteve pejada de esplanadas, entretanto encerradas para evitar o consumo excessivo de álcool. De garrafa de cerveja na mão e devorando pacotes de pevides, os jovens invadem o passeio ribeirinho debruçado sobre o Angara, ao mesmo tempo que pares de namorados passeiam abraçados com promessas de amor eterno. São estas mesmas promessas que os recém-casados fazem ao cumprir a tradição de colocar um cadeado com os seus nomes junto ao rio Irkutsk e atirar as chaves às águas  que correm apressadas. Sem volta, para que o amor perdure…

Até chegar aqui é difícil idealizar o lugar tal como é. Estava enganada, tal como acreditei tempo demais que as pirâmides do Egipto jaziam em dunas e não junto à estrada a meia dúzia de passos do caótico Cairo. Também a Sibéria é muito mais do que um cenário desértico. No meu mapa, o Baikal ficava noutro lugar qualquer. O encontro foi uma boa surpresa. A mancha azul a meus pés  parece ter a dimensão de um mar. Gigantesco  — mais de 600 quilómetros de comprimento e 80 de largura —, o maior lago de água doce do mundo — estudos dizem que era capaz de suprir as necessidades do Planeta durante mais de 40 anos — é proporcionalmente belo. O título de Património da Humanidade assenta-lhe bem. Delicio-me com um cruzeiro nas suas águas calmas. Depois subo ao teleférico para uma vista panorâmica, na despedida.

A partir daqui, a emoção da travessia mongol alimenta-me. Na estação, o Transmongoliano já espera. Nota-se na população e nos traços asiáticos. Quando partimos já é noite; a luz intensa da Lua cheia ainda nos deixa ver o Baikal entre as árvores. Levo-o comigo em pensamentos. A temperatura desceu.

Habituamo-nos a um tempo onde não cabem as rotinas que nos perseguem no dia-a-dia. Sobram jogos de cartas, leituras e conversas avulso. Dorme-se a qualquer hora, porque o corpo já não sabe a quantas anda — algures há-de haver um fuso horário compatível. A paciência é testada nas passagens fronteiriças. Ao sair da Rússia esperamos cinco intermináveis horas até que as autoridades procedam à verificação dos passaportes. Há rusga policial, cães a farejar todos os compartimentos, interrogatórios, correm rumores em várias línguas que há droga a bordo. As autoridades não param de vasculhar, dois passageiros não seguem viagem. Quando avançamos para a Mongólia, 20 quilómetros adiante, escoltados por militares russos, o processo repete-se: recolher os passaportes, analisar os vistos, esperar… Esperar… Passaram nove horas desde a primeira fronteira e continuamos à espera. O apito pode soar a qualquer momento. Voltamos aos jogos, às leituras, às conversas. Já é noite, pela manhã estaremos em Ulan Bator. Finalmente.

(A viagem continua dentro de dias…)

 

 

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