Transmongoliano – De Moscovo a Pequim I

Posted on Fev 4, 2013 in Travels | 0 comments

 

 

Começamos por ser estranhos na mesma carruagem. Alguns é pela aventura que vão, mas para muitos este é o caminho de regresso a casa, ao encontro da família. Afinal o Transiberiano é a única ligação ao mundo de muitas ligações ao longo da linha férrea que atravessa toda a Rússia, de Moscovo a Vladivostoque, junto ao Mar do Japão. Da Europa até à Ásia, o comboio que sai da estação de Yaroslavsky vai seguir viagem durante oito dias, atravessar oito fusos horários, até completar o percurso , 9.289 quilómetros. Sairei a meio caminho, em Irkutsk, na Sibéria, para ali apanhar o Transmongoliano que me levará até Pequim, via Mongólia, com paragem em Ulan Bator.

Depois da confusão habitual das malas de tamanho inapropriado para cubículos minúsculos onde se espera que caiba a vida durante 15 dias, o comboio despede-se de quantos acenam na estação. Ainda demoramos a sair de Moscovo, uma das cidades mais caras do mundo, com 12 milhões de habitantes e muitos contrastes. Onde os pobres se aquecem nos respiradores do metro e os ricos em visons das melhores peles. Onde as crianças são abandonadas em orfanatos quando se tornam um peso no orçamento familiar enquanto outros passeiam na Millionaire Fair, de artigos do luxo, à procura de novos brinquedos. Foi ali que passeei pela Praça Vermelha e pelo Kremlin, que visitei a Galeria Tetriakov e muitas estações de metro que mais parecem salas de museu. A sumptuosidade do Hotel National, ao estilo dos czares, ou a exuberância do Hotel Moskva — a cheirar a novo depois de dez anos de obras —, não cabem na composição onde sigo. O ambiente kitsch de panos de renda a enfeitar a única mesa de apoio entre as quatro camas e os estofos com padrão antiquado requerem habituação.

Divido o compartimento com outras três pessoas, que como eu, se aventuram no desconhecido. Seguimos vestidos normalmente, como se a viagem durasse apenas algumas horas. Mas quando cai a noite e nos aconchegamos nos pijamas percebemos que vai ser uma longa jornada. O assento duro transformado em cama, dois em baixo e dois em cima, com cerca de sessenta centímetros de largo, não permite grandes movimentações. A luz da Lua e das estações por onde passamos, os solavancos, ora suaves ora violentos, agitam o sono… Talvez seja apenas ansiedade. Escureceu mal arrancámos e do percurso ainda não vi nada. Hei-de acordar assim que clarear. Todo o vagão parece ainda dormir… O comboio pára e sem perder tempo, saio de máquina fotográfica em punho.

Há um quadro afixado no corredor com os nomes (ilegíveis) das estações ao longo do itinerário e a duração da paragem. Apenas 11 minutos. Tento respirar o ambiente, capto os rostos sofridos das pessoas com roupas garridas, guardo o cheiro da comida cozinhada, acompanho o corre-corre de quem sabe que esta é a única oportunidade para fazer negócio. O Transiberiano, único comboio a cruzar o país de lés a lés, só passa uma vez por semana. Ao sinal do revisor, volto para a carruagem sete e só nessa altura reparo que estou de pijama. Que importa? A partir do primeiro despertar, a maioria dos passageiros estrangeiros opta por andar de fato-de-treino ou com roupas já gastas pelo uso, para ir deixando pelo caminho. Só os russos mantêm a compostura, embora o seu guarda-roupa pareça ter saído de um filme de época. Ao sinal do revisor, volto para a carruagem. Seguimos. Vai ser sempre assim, sem sair da linha; das cidades por onde passarmos não conheceremos mais do que o que se vê das estações e o contacto com os locais. As paragens são rápidas, apenas o suficiente para entrada e saída de passageiros.

O Transiberiano foi apresentado pela primeira vez na Exposição Universal de Paris, em 1900. O pavilhão russo dava a conhecer paisagens da longínqua Sibéria e aspectos da cultura local. O luxo do vagão atraiu inúmeros visitantes deslumbrados com o piano do bar, a livraria, o vagão-restaurante onde se servia caviar de esturjão. Hoje, o comboio original é um resquício desse tempo mais dado a aventuras que a mordomias.

À medida que nos afastamos de Moscovo, os fusos horários alteram-se. Viajo no tempo a uma velocidade que o organismo não consegue acompanhar. O pior: a bordo é sempre hora de Moscovo. Imaginem almoçar às 9h da manhã? E jantar às 15h? E em Portugal que horas são? O melhor é esquecer as horas e seguir apenas o ritmo biológico. O vagão-restaurante quebra a rotina e convida a conversas. O espaço é escuro, em tons de verde-garrafa, dividido em seis mesas com toalha de renda e naperon a condizer, para quatro comensais. Trocam-se experiências de viajantes.

Os Urais ao longe, terras dos Goulag, hoje, apenas uma memória dos que eram marcados para o esquecimento e embarcavam numa viagem sem regresso. O caminho tem a dimensão de uma epopeia com o peso da história e isso não cabe no mapa. Desfilam bosques de bétulas na janela ao longo de muitos quilómetros. Vamos a caminho da Sibéria. Cruzamos composições intermináveis de comboios que transportam madeira, carvão e outros minérios, velhas fábricas, datchas, povoações que parecem aldeias fantasma com casas construídas em madeira, Lada estacionados. Durante muitos quilómetros nem vivalma. Só o fumo que sai das chaminés denuncia os moradores. De quando em vez, vê-se gente que passa desviando os olhares para o comboio, como se também eles quisessem subir a bordo. Alguma vez terão deixado a sua terra? A melancolia espreita. Lembro outros que imortalizaram esta grande travessia: Blaise Cendrars, Pablo Neruda, Colin Thubron. Viram a poesia na paisagem e souberam usar as palavras como poucos. Segui com eles em boa companhia.

(Continua dentro de dias…)

 

 

 

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